Chega de mansinho: olha-se pela janela e é dia; senta-se a escrever e ainda há luz; começa a escurecer e acende-se o candeeiro; acaba-se a escrita, levanta-se a cabeça e percebe-se que chegou a noite — assim vai chegando a cegueira progressiva.
Não sei desde quando vinha a cegar, mas no ano em que chegou aqui a Seide já se ouvia Camilo suspirar pela casa receios de que a visão lhe falhasse. Camilo, como bom cérebro artista, falava frequentemente em alto e bom som com ele mesmo e com o mundo; era comum ouvi-lo vociferar sobre os ministros, a leviandade de Nuno, as loucuras de Jorge, as picardias com Ana.
Sobre amores e enredos de personagens adotava outro tom, porque génio que tem génio aumenta mais o som com o que o espicaça. Sobre o avanço da cegueira, o tom era grave.
Excerto de “A Última Obra de Camilo”, publicado no livro “OLHARES CAMILIANOS: DIVAGAÇÕES DÍSPARES E INTEMPORAIS”. Saber mais em https://editoras.com/oc/