
“São textos, senhor, são textos.”
— Ninguém, nunca.
E ela, ultimamente, publicou textos assim:
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Depois do segundo copo, já nada fez sentido. Tunísia é mais barato. Ilhas gregas era um sonho, mas já viste os preços? Mais depressa ia à Nova Zelândia. Não ias não, e ainda nem vi os preços. É curto? Não. Comprido. Não andavas com aquele rapaz moreno? Já foi há um ano. Já foi há…
Escrito algures, mas publicado a
| Da coleção
Muito meu -
Quase ninguém sabe que eu, Embora não o aplique a veículos, Quando quero atrevo-me a conduzir. Um jantar para a sobremesa, O corpo para a saída, A conversa para os verbos, Sorrir, sugerir, insinuar, Brincar, perguntar, oferecer, Mas nem confetar nem comer. Vale muito na brincadeira Mas não verbos que causem migalhas.
Escrito algures, mas publicado a
| Da coleção
A vida real -
Chega de mansinho: olha-se pela janela e é dia; senta-se a escrever e ainda há luz; começa a escurecer e acende-se o candeeiro; acaba-se a escrita, levanta-se a cabeça e percebe-se que chegou a noite — assim vai chegando a cegueira progressiva. Não sei desde quando vinha a cegar, mas no ano em que chegou…
Escrito algures, mas publicado a
| Da coleção
Inspirada pelos grandes -
Está um dia de sol e vou aproveitar para lavar as mágoas, porque assim, se um dia voltares, não tens de esperar que sequem. As mágoas lavam-se a quarenta, não pode ser a frio, ou misturam-se com raivas e teimas que depois não permitem às mágoas secar. Se couberem na máquina, ainda lavo os chinelos…
Escrito algures, mas publicado a
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Se calhar, desta [minha] vez, percebo aquela [tua] vez, em que me falaste da Caparica.
Escrito algures, mas publicado a
| Da coleção
Muito meu -
Fui, de intenção bem definida, cara lavada e postura contida, comprar-te um pouco do que te faltava. Como flecha porta fora, nome de gato e pressa na hora, comprar-te um pouco do que te faltava. Comprar-te um pouco porque te faltava, lá fui eu de cara lavada, postura contida que já é hora. Pouco me…
Escrito algures, mas publicado a
| Da coleção
A vida irreal

“A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana.”
— Fernando Pessoa.
