Levou o almoço a almoçar fora. Aquela pizza que lhe apetece, duas fatias para valer a pena, três que não quer ter fome, o sumo natural que vai ficar uma fortuna, e a que preço, afinal, meu Deus, vai ficar o almoço para o jantar? Quatro euros a fatia de pizza? Serão quatro euros a fatia de pizza? Lembra-se de alguma vez algo ter sido a quatro euros, o que era, o que seria, leva o NIF que compensa a culpa e afinal são oito euros. Oito euros para o almoço ficar para o jantar e comer o que lhe apetece no sítio que lhe apetece a remoer sobre o quanto não lhe apetece fazer o que tem que fazer.
Oito euros que daqui a bocado saem, saem sempre, nunca ficam, se não for do PayPal é do grosso ao delgado, ou ao contrário, que não é preciso confundir mais. Oitos euros que saem e pensa noutra coisa, lê, lê o quê, não há livros ali, mas pois é, que tem aquele livro em PDF, vai que o abre e ora, já aberto ele está, na pagina 17 há mais de 7 semanas. Desde o natal para ler 35 páginas.
Esqueceu-se. Lembrou-se que ontem a Filomena queria saber a sala do inglês, mas passou a Páscoa e não se lembrou do livro que começou a ler em dezembro porque era curtinho, lia-se bem.
Esqueceu-se. Adia a cada dia as suas coisas, porque tem de, porque é assim, e quando não é, é melhor dizer que sim, porque o que justifica passar 4 meses e só ter lido 17 de 35 páginas? Começou outra guerra, há um novo governo, Cristo nasceu e ressuscitou outra vez e ela não leu. Não leu.
Mas atenua a culpa com mais 5 páginas de um relatório que não vai acabar com a guerra nem ter qualquer utilidade para o mundo. Deita-se tarde porque estava a fluir, aquelas duas horas depois da meia noite renderam mais que 8 horas diurnas, que satisfação, e que cansaço. Lava os dentes, olha-se ao espelho e lá está ela: dez anos mais velha do que a outra. O que ela precisava não era de mais um creme, era de cuidado. Era de uma limpeza profunda, de uma massagem, de um yoga facial, já se imagina, amanhã, dez minutos por dia, ela tem dez minutos por dia, 3 para limpar a pele, 3 para espalhar o creme em yoga, 4 para ginasticar o rosto, amanhã, sim, ela amanhã tem tempo, depois de amanhã, ela tem tempo, do fim de semana não passa, no fim de semana há sempre tempo.
Mesmo que lave a roupa, limpe o pó e comece a pintar as juntas da cozinha que estavam mesmo a precisar, ela tem tempo; nem que segunda saia mais cedo, jante a horas, só dois episódios de duas horas daquela série, ela terça tem tempo; nem que jante na mãe e quarta responda a emails até às dez, quinta vá treinar que não aguenta mais estar sentada, sexta tome um calmante para dormir, no fim de semana há sempre tempo, se não neste, no seguinte… adia-se.
Amanhã. Será sempre amanhã enquanto houver tempo amanhã.